Olha, eu sei que pode ser culpa dessa dor de cabeça que não vai embora desde anteontem, aliás, pra porra por a culpa em alguma coisa. Esse caos que eu sou, é pra ser. A culpa é minha então, e hoje, não sei como, estou me dando bem com essa culpa. Bah, chega de falar dela. Fiquei ouvindo que já fingi ser melhor, aprendi a ser pior. Deixa, eu estou transbordando, não só por mim, mergulhei na felicidade de todo mundo, compartilhar isso é tão. É tão. Foda. Tirando o acúmulo de chuva e calor oscilando por dentro, eu to sentindo uma paz estranha, uma paz totalmente desnorteada, como eu. Eu vi as gotas fortes no vidro e agradeci a Cuyaba por estar sentindo junto comigo, o calor e a chuva. Chove pouco, faz muito calor. Nessa cidade e em mim. Mas quando chove vale a pena. Apesar de que to com tanta saudade de São Paulo, aquela cidade cinza onde todo mundo anda com os olhos cansados. São Paulo é introspectiva, juro. Quem vai pra lá entende, não tem como sair. O trânsito barulhento, a garoa todo dia, as manhãs que me fazem colocar um casaco e tomar um leite quente e pensar que a merda do metrô vai estar lotada de gente desesperada. Lendo parece brincadeira eu amar tanto aquele lugar. Só que até o ar puro daqui já ta me enjoando. Quero toda aquela fumaça e aquele friozão na Paulista e andar, andar e andar enquanto amanhece tomando duas latinhas enquanto a pontinha do nariz tá congelando. Cuyaba é minha casa, São Paulo sou eu. A respiração ta calminha agora, durante o dia ficou teimando, queria ficar mais rápida que nem o coração, que também parecia que tomou um porre. A cada cinco minutos mudando, nem que seja a fronha do travesseiro, mas no fim eu sou a mesma. Nova e Igual. Janeiro deixou a garganta louca e o corpo com uma impulsão fodida. Muito vai ficar desses desvarios. E muito vai sumir. Muito, sempre muito, ainda sou esse êxtase sem fim. Comecinho de fevereiro e hoje eu to pensando que dá vontande de sair voando, não dá?
